Al Qaeda pode ser a desculpa de uma guerra de Trump contra o Irão

Invocando novos dados dos serviços de informações que apontarão para o aumento do nível de ameaça iraniana no Médio Oriente, a Administração Trump enviou para a região 1500 novos militares no início de maio. Nos últimos dias, na ressaca do episódio do ataque aos petroleiros no Golfo de Omã, o presidente norte-americano autorizaria a colocação de mais um milhar de homens.

A situação pode aquecer ainda mais com a possibilidade de os iranianos ultrapassarem nos próximos dias os 300 quilos de stock em urânio enriquecido estabelecidos pelo acordo nuclear estabelecidos em 2015 com o grupo 5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia mais Alemanha) e a União Europeia. Os Estados Unidos retiraram-se do acordo no ano passado e Teerão deixa um apelo: limitará a produção nuclear se a comunidade internacional levantar as sanções económicas. Washington puxa o outro lado da corda, pedindo um aumento da pressão sobre os iranianos.
É neste cenário que os homens de topo da equipa de Trump procuram impulsionar duas teses no seio das mais altas instâncias da capital: os laços entre Teerão e a al Qaeda vêm desde o pós-setembro de 2001 e a autorização do Congresso que permitia a Bush atacar a al Qaeda e os seus aliados estará ainda válida para que Trump lance contra Teerão aquela que será a sua primeira guerra.
É um argumento que vem sendo trabalhado não apenas pelo pessoal de topo da Casa Branca, mas igualmente por membros do Pentágono e pelo próprio secretário de Estado, Mike Pompeo.
Irão xiita, al Qaeda sunita


Ouvido pelo New York Times, o senador democrata da Virgínia Tim Kaine, membro dos comités das Forças Armadas e das Relações Externas não tem dúvidas de que “estão a procurar cimentar um argumento que permita ao presidente decidir da forma que mais lhe agradar, sem ter de pedir ao Congresso, e sentem que a autorização de 2001 lhes permitirá ir para a guerra com o Irão”.


Sem adiantar pormenores dos dossiers que estão sob segredo, o senador democrata sublinhou, contudo, que quadros superiores da Administração “mencionaram o facto de o Irão estar a servir de abrigo à al Qaeda”.
Mike Pompeo também tem martelado nesta tecla, de acordo com o testemunho de outra democrata, Elissa Slotkin, membro da casa dos representantes pelo Michigan. Trata-se de uma argumentação linear – autorização de 2001 mantém-se dentro do prazo de validade e há provas inequívocas a relação entre al Qaeda e Teerão – que poderá ser suficiente para os desejos bélicos da Administração, havendo para isso uma conjuntura favorável.

De acordo com o NYT, Pompeo visitou esta terça-feira o Comando Central da Florida para levar esta ideia aos comandantes militares. O secretário de Estado, questionado há vários meses sobre a possibilidade de a Administração vir a usar a autorização de 2001 para encetar uma guerra contra Teerão, nunca deu uma resposta inequívoca no sentido de afastar essa hipótese.



Há contudo um facto que ameaça a lógica desta maquete perfeita: o Irão é um país xiita, a al Qaeda é manifestamente radical e sunita. São duas facções do islão que não podem compatibilizar-se, aliás, os sunitas chegam ao ponto de considerar os xiitas apóstatas. Trata-se de um relacionamento colocado à prova em múltiplos conflitos regionais e sempre com o mesmo resultado, com xiitas de um lado da barricada e sunitas do outro, como aconteceu e acontece no conflito na Síria.


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