Depois de durante séculos beneficiar da sua localização geoestratégica no Atlântico Médio, as ilhas de Cabo Verde e o mar em volta escondem outras potenciais riquezas, de grande importância, determinantes para o futuro da sua economia. De acordo com Jacob González-Solis, professor catedrático da Universidade de Barcelona, são cerca de 14 montanhas submarinas (e outras elevações menores), de origem vulcânica, em volta de Cabo Verde, escondidas sob a superfície do Atlântico, na sua Zona Económica Exclusiva.
Estas elevações do fundo marinho (Monte Noroeste, junto a Santo Antão, Nova Holanda, a leste da Boa Vista, o Tchadona e o Cadamosto, a 25 quilómetros da Brava, talvez o mais conhecido, medindo 1380 de altura) funcionam como verdadeiros oásis de vida, concentrando biodiversidade, atraindo espécies comerciais de elevado valor económico e sustentando, de forma directa e indirecta, milhares de famílias cabo-verdianas que dependem do mar para viver.
Possuidor de uma das maiores zonas económicas exclusivas (ZEE) da África Ocidental, Cabo Verde tem no oceano o seu principal recurso natural. Os montes submarinos — formações geológicas que se erguem centenas ou milhares de metros acima do fundo oceânico — são elementos-chave desse espaço marítimo. O estudo agora divulgado mapeou e analisou vários desses montes, avaliando a sua biodiversidade, dinâmica ecológica e importância para as pescas artesanais e industriais.
Bancos de pesca ricos em espécies marinhas
Os resultados confirmam aquilo que muitos pescadores já sabiam por experiência há gerações: os montes submarinos, também conhecidos por bancos de pesca, são zonas de grande produtividade biológica. As correntes oceânicas, ao encontrarem estas elevações, são forçadas a subir, trazendo nutrientes das profundezas para camadas mais superficiais. Este fenómeno, conhecido como ressurgência, alimenta o fitoplâncton e desencadeia uma cadeia alimentar que sustenta peixes, crustáceos, moluscos e a mega fauna marinha, como tubarões, tartarugas-marinhas, cetáceos.
E acordo com os investigadores, a biodiversidade associada a estes montes é espantosa. O estudo identificou recifes profundos de corais de água fria, esponjas de grande porte e comunidades de invertebrados ainda pouco conhecidas pela ciência. Muitas das espécies registadas são endémicas ou raras, o que reforça o valor ecológico destes habitats. Para além disso, os montes submarinos funcionam como áreas de reprodução, crescimento e alimentação para espécies migratórias como atuns, cavalas, tubarões, fundamentais para as pescas nacionais.
Do ponto de vista socioeconómico, a importância destes bancos de pesca é incontornável. Apesar de ainda ser considerado débil, dada a pequenez da frota nacional, o sector das pescas representa uma fonte crucial de rendimento, emprego e segurança alimentar em Cabo Verde, especialmente nas comunidades costeiras. A pesca artesanal, praticada maioritariamente a partir de pequenas embarcações, depende fortemente da proximidade — muitas vezes, feita a escassas dezenas de metros da costa — e da produtividade dos montes submarinos. Nesses locais, os pescadores encontram maiores capturas com menor esforço, reduzindo custos e riscos associados à actividade no alto-mar. Uma das grandes vantagens da pesca em Cabo Verde.
